Angústia na era do excesso

Um relato confessional, aberto e sincero de quem passou a travar uma batalha contra algo que demorei a entender: a crise de ansiedade

Foi quando eu não dormi, há umas duas semanas. Na verdade, preciso voltar no tempo. Feriadão de primeiro de maio e um combo: uma garrafa de Jack Daniels num dia, uma sensação de estar definhando no outro e uma noite inteira sem dormir no terceiro dia. Trabalho feito mal e porcamente. Uma sensação de solidão absurda. Uma crise forte em que pressionava as paredes do meu apartamento buscando não cair. Palpitação a mil. Ninguém para compartilhar. Achei que era um recado do isolamento social e da minha condição na época. Recém separado, longe dos meus cachorros naquele fim de semana, pandemia evitando de ver amigos e pessoas que tinha conhecido, fui tomado por um sentimento de absoluta incapacidade de fazer qualquer coisa que não fosse pensar que eu estava um lixo, no meio de uma crise que não sabia muito bem se era um infarto ou uma paranoia. Eu tinha a ideia de que poderia controlar os dois. Não era um infarto. Pressão e batimentos em dia. Era paranoia, mas eu não conseguia controlar. E eu tento controlar tudo na minha vida.

Avançamos no tempo e chegamos no período proposto no primeiro parágrafo. Há duas semanas, tive uma insônia parecida. O evento do Jack Daniels fez eu parar de beber. Mas a insônia de maio fez eu voltar com o Rivotril. Tomei um, não veio o sono. Paranoia amplificada. O pensamento de que obrigatoriamente alguma coisa ruim vai acontecer não me largava em nenhum momento. Passei a conviver com isso nas duas semanas que vieram a seguir. Estou, neste momento, convivendo com isso. Não é nada legal. É como se fosse a premeditação de um fracasso sobre algo que eu nem sei o que é. É medo, pânico. É sentir que ninguém gosta de mim e que todas as pessoas são melhores que eu. É achar que a vida das pessoas é melhor sem mim e que eu sou insuficiente para absolutamente tudo. É, eu sou egocêntrico, dizem. O egocêntrico caiu. Esse texto é minha volta ao Medium, o mais confessional que já fiz, e que pretende ser uma espécie de carta aberta de um egocêntrico que está com você, camarada, que sofre de crise de ansiedade.

Quando a razão já não responde

Não é fácil escrever sobre isso, mas se tornou meu escape. Não é fácil absorver as dicas óbvias que me dão: se alimentar melhor, fazer exercícios, cuidar do estresse. Estou me alimentando melhor, não tem força no mundo que me faça exercitar e o estresse foi transformado em piloto automático. É preciso dizer que toda essa minha condição é perfeitamente racionalizada por mim. Eu sei o que tenho que fazer. Mas eu não consigo. Sempre foi uma pretensão minha racionalizar tudo: minhas paixões, meus relacionamentos, meu trabalho, minhas atividades. Racionalizar significa estabelecer um certo controle nas coisas que temos para fazer. Pela primeira vez, eu perdi o controle. Mesmo quando passei por um delicado divórcio, em 2017, eu racionalizava a situação e jogava ela para uma zona de conforto onde eu tinha a plena convicção de que tudo era fase. Isso fez com que eu não tenha nada de mal entendido com ninguém. Mas não significa que eu não tenha nada de mal entendido comigo.

Eu nunca tive uma sensação real de angústia como agora. A rigor, embora eu seja um teórico chato em CONTEÚDO, sou prático na FORMA (ou o contrário, não sei). Sempre fui um problem solver, com um certo orgulho de saber que conseguiria solucionar as coisas. É uma maneira muito boa de estar no controle de qualquer situação. Uma outra forma que sempre achei de resolver foi a partir da extrema medida da catarse, da produção de um caos para construir um abalo que funciona como a derrubada de um prédio. Resolver a partir da destruição, do rompimento. Pode ser sofrido ou traumático, mas é uma forma de colocar fim às coisas e retomar o controle. Mesmo nas minhas fases mais caóticas, o controle nunca foi perdido.

O problema é que a ficha caiu de uma forma diferente agora. Vamos voltar ao auge do isolamento social (pra quem fez, obviamente)? Eu realmente estruturei aquele período como se fosse de autoconhecimento. Eu não mudei em essência, mas mudei no modo com que eu me observo. Eu mantive essa pompa de saber tudo o que acontece e de racionalizar tudo como uma estratégia para que eu me mantivesse saudável. Mas percebi que era uma ilusão. Era um duelo de forças: de um lado, a razão sabendo o que acontecia e exigindo calma e paciência, que tudo estava sob controle; de outro, uma emoção incontrolável que gerava ansiedade, aflição, angústia e, agora, recentemente, desespero.

Com o hábito de racionalizar as coisas, procurei entender o que me angustiava. No início, achei que era uma série de coisas: separação, a situação do Brasil, solidão, muita coisa para fazer — cheguei achar que era uma espécie de burnout -, descontentamento com os rumos da minha profissão, a pandemia. Evidentemente, são temas que me incomodam. Entretanto, nenhum deles serviu como um real gatilho daquilo que sinto. Acho que o gatilho inicial dessa fase aconteceu lá em 2016, por motivos que não vou abrir. Mas tem um, em especial, que precisa ser mencionado: redes sociais. É hora de falarmos sobre elas e sobre o que chamo de era do excesso.

O excesso e o biscoito: uma bomba de autoexpectativa

Parece ser uma bobagem, mas possivelmente haverá alguém a se identificar comigo. Entre todas as coisas, nenhum gatilho foi mais forte que ver o que acontece nas redes sociais. Antigamente, eu tinha problemas com os chamados haters. Eu sou um jornalista esportivo e sou xingado diariamente. Sem falta. Sempre tem alguém que vai me xingar. No início, isso me incomodava. Hoje, eu meio que não dou bola. Foi quando percebi que havia gente que gosto que também passou a me xingar. E, faz pouco, percebi que transcendia isso. Eu passei a gostar menos de pessoas que eu sempre gostei muito. Por que será?

A rede social é um excedente da realidade (oi, Juremir, obrigado por isso). A gente não atua como a gente é. A gente atua conforme um personagem que demarca um território que visa mostrar aos outros aquilo que a gente quer ser. O Twitter passou a ser um lugar mal frequentado. Mas eu tenho um apreço pelo submundo e, rapidamente, entendo a pobreza de espírito das massas (oi, Ortega y Gasset, obrigado por isso). Os haters não me incomodam. E, com o tempo, nem as indiretas das pessoas por quem tenho apreço. Elas têm seus motivos, certamente. De alguma forma, eu causei alguma decepção nelas. Eu decepciono bastante. O que passou a me incomodar foi a relação de muita gente que gosto com todas as coisas que acontecem no mundo. O Twitter virou uma confraria de tudólogos, em que assuntos bem específicos, como vacina, agronegócio, eleições norte-americanas (não vou usar estadunidense, acho brega) e, sei lá, cloroquina, passaram a ser dissertadas por quaisquer pessoas, desde que elas vejam um que outro post sobre o assunto.

Opinião virou commodity. Virou saco sem fundo, como diria minha avó. Virou uma espécie de obrigação dos tempos atuais, reforçando a imagem daqueles que querem que todos acreditem que eles têm um amplo conhecimento sobre qualquer assunto. Minha saída do Sexta-Feira 13 foi por isso. O sensacional projeto que ajudei a criar foi deixado por mim por causa do… excesso. Não raras foram as vezes em que me sentia um impostor falando sobre coisas que eu não sabia. No Twitter, a mesma coisa. É uma sensação horrível, que invadia meu fim de semana com a preocupação de ter sido, naquele momento, um farsante. Acho que fui um farsante muitas vezes. Entendo sobre pouca coisa e percebi que isso é ótimo. Então, que meu conhecimento sobre essas poucas coisas seja compartilhado. Mas o Twitter não funciona assim. Uma pessoa que eu gosto MUITO tuitou 46 vezes numa segunda-feira, sobre OITO assuntos diferentes: a morte do cara que fazia o Louro José, a rodada do final de semana, as eleições nos EUA, o Bolsonaro, o futuro da TV brasileira, a pandemia do coronavírus, o Sebastião Melo e sobre o jornalismo gaúcho. Aí eu fui ver outro cara que sigo, que parecia estar em tempo real na rede: a cada TT, uma opinião. Foi sufocante.

Aí, fui para o Instagram, que tenho usado mais que o Twitter. O Instagram é um mundo à parte. Se no Twitter, o objetivo é mostrar o excesso de neurônio, no Instagram, a intenção é mostrar o excesso de felicidade. O excedente da realidade é manifestado em seu estado bruto. Nada me parece real ali. A rigor, é um bando de gente querendo “biscoito” (sou do tempo do “confete”) por algum momento de (falsa) plenitude para que se prove aos outros a sua própria beleza. Não é sobre amor próprio. É como se ele chegasse apenas com a validação dos outros. A gente quer ser bonito, desejado, inteligente e (ai, ok) pleno. Não tem nada de errado nisso. Mas aquilo provocou um gatilho em mim (e é pessoal isso, eu entendo) que remete àquilo que estou enfrentando e que resolvi compartilhar com vocês: não é só sobre excesso ou sobre “biscoito”. Também é sobre como a gente está se enxergando diante dos outros.

Os outros são melhores que eu

Eu não dormi porque me achei inferiorizado diante de uma pessoa que nem conheço. Não cabe aqui dizer quem é e nem as razões pra isso. Lembrei daquela cena do Clube da Luta, em que o Edward Norton soca o Jared Leto até não poder mais. No final, ele diz: “I felt like destroy something beautiful”. Era como me sentia ao enxergar as vidas perfeitas de todos. Por que a minha não era? Ei, peraí, talvez ela seja. E o que eu estou mostrando aos outros? A mesma coisa que vocês mostram a mim. Então, por que os outros incomodam? Por que esse sentimento de que eu preciso estar competindo para ser melhor que qualquer pessoa que não tem relação alguma comigo?

Eu não sei explicar muito bem isso, porque eu racionalizo a questão. Eu sei que é uma bobagem e, vá lá, ninguém é acusado de egocêntrico à toa, certo? Eu tenho uma vaidade intelectual e sei das minhas qualidades. E sei que não sou necessariamente uma pessoa que poderia enfrentar problemas de autoestima. Bem conceituado, com certa facilidade para conseguir o que eu quero, privilegiado social, uma vida confortável, sem problemas para conquistar alguém, um grau alto de reciprocidade com as pessoas que convivo e até referência para algumas pessoas. Então, por que me incomoda tanto imaginar que alguém pode ser melhor que eu? Por que isso é um problema?

A terapia está trabalhando esse ponto. Não é para ninguém responder às perguntas que fiz. A ideia é compartilhar que, mesmo com tudo em dia, existem coisas que a gente não sabe explicar. Ter como gatilho a vida dos outros em redes sociais e escrever isso agora, com uma adrenalina já liberada de muitas linhas que se foram, soa ridículo. Mas foi um gatilho. É um gatilho. E é uma sensação horrível, em que vou me escondendo, absorvendo uma falta de confiança, um desgosto em mim, uma ausência de se sentir qualificado, bonito, inteligente. Eu perdi tudo isso. Me senti feio, mas não é só feio; é mais feio que fulano. Me senti incapaz, mas não só incapaz; é mais incapaz que fulano. Me senti burro, mas não só burro; é mais burro que fulano. É como se enxergar numa redoma em que todas as inseguranças do mundo te cercam. E elas são acionadas pelo mínimo: uma foto, uma lembrança, uma curtida, uma palavra, um gesto que não acontece, uma resposta evasiva. Qualquer coisa é motivo para que desencadeie uma grande sensação de… insignificância. Ou fracasso.

A única forma que eu sabia de lidar com isso era provocar um enorme caos, que viraria uma catástrofe, derrubaria o prédio e seguiria em frente. Destroy something beautiful…

Numa pausa, li esse texto do Intercept sobre o Instagram. E essa frase: “Gente que tenta não exatamente viver, mas viralizar”. A gente está trocando a vida pela imagem; a experiência pela aceitação; as relações reais pelo sucesso imaginário. A gente quer ser seguido e curtido e isso parece bastar. Isso é muito triste.

… O problema é que eu envelheci, amadureci e resolvi encarar as coisas de frente antes que elas necessariamente se transformem em tragédias. Eu não quero mais os eventos caóticos. Eu quero a dissipação do caos. Quero saber lidar com todos esses sentimentos e resolvê-los, me tornar saudável ao ponto de me entender bem e de que, embora isso siga comigo, poder ser algo passageiro ou irrelevante. Foi quando percebi o que realmente tenho.

A crise de ansiedade

Conversando muito com quem tem crise de ansiedade, lendo sobre o assunto e fazendo terapia, percebi que é isso que tenho. É viver com medo de perder e constantemente me sentir asfixiado pelo que eu vejo. Não, não adianta dizer nada que eu não vou aceitar até que eu tenha certeza de que isso é verdade. Não adianta dizer para me cuidar se eu não sei como me cuidar. Não adianta dizer que é uma bobagem se minha cabeça diz que não é bobagem. Não é tristeza, não é frustração, não é decepção, não é recalque. É uma angústia que me deixa triste, me frustra, me decepciona e me deixa recalcado. É como ter uma inveja constante de algo que eu não sei o que é. É como ter um medo constante de algo que não tem nem indícios de que vai acontecer. É se ver como culpado, entediado e irrelevante.

A verdade é que as redes sociais me cansaram, mas não foi um movimento natural. Elas passaram a se relacionar comigo de uma forma muito mais nociva que divertida. Ela é o retrato dessa era excessiva onde tudo é voltado para reforçar uma imagem. E isso aos montes: é muita opinião, muito parecer, muita foto, muito meme, muito joguinho, muito tudo. Mas não foi só por isso: elas serviram como gatilho para algo que eu custei a perceber, mas que está em mim faz muito tempo.

Meu estado de espírito está diretamente conectado ao estado de espírito do nosso tempo. Inacreditavelmente, percebi que, caso eu receba “biscoito”, caso eu receba like e caso eu receba um feedback positivo a respeito de alguma coisa, a ansiedade é aliviada. É como se eu fosse refém daquilo que critico. No fundo, é como funcionam os gatilhos: a gente quer ser aquilo que nos mostram. Talvez eu queira ser aquela pessoa que foi referida; talvez eu queira receber um elogio por uma foto; talvez eu queira me sentir seguro sobre tudo como vejo que as pessoas são. Ou, talvez, seja só um sintoma bem sério daquilo que sinto e que, há duas semanas, atingiu seu ápice: sou um ansioso e preciso me tratar, sob pena de perder realmente quem eu gosto.

Não é fácil. Eu tive que escrever esse texto como forma de expurgar um pouco desse aperto no peito que eu senti durante todo o dia de hoje. Não sei se vai ajudar, mas cada um tem seu escape. Eu escrevo. Citando a frase mais brilhante da virada do ano, vou de Chico César: “Não sou seu entretenimento […] Não conte comigo para niná-lo. Não vim botar você pra dormir. Aqui estou para acordar os dormentes”. Esse canal nunca foi de entretenimento. Ele sempre foi o meu fio da espada no pescoço daquilo que me cerca. Hoje, eu mudei. O fio da espada veio para o meu pescoço, esticado e frágil. A merda é que eu vejo outras mãos segurando o cabo. É sufocante. E não adianta dizer que vai passar, porque não vai. Ao menos, não agora.

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Jornalista; comentarista esportivo; doutorando em Comunicação; mestre em Comunicação e Informação; especialização em Jornalismo Esportivo.

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Carlos Guimarães

Jornalista; comentarista esportivo; doutorando em Comunicação; mestre em Comunicação e Informação; especialização em Jornalismo Esportivo.