A Copa errada (ou como não se explicam as paixões)

Van Morrison é um artista nascido na Irlanda do Norte que lançou pelo menos dois discos fundamentais para o rock: Astral Weeks (1968) e Moondance (1970). Eu adoro esses álbuns. Recentemente, o cantor se revelou contrário à vacinação para prevenir a Covid, ostentando com orgulho o rótulo de negacionista. Eric Clapton fez o mesmo e é um dos maiores nomes da história do rock. Certa vez, escrevi sobre a qualidade da obra de Roberto Carlos, mesmo na sua (boa) fase romântica. Sabemos que as posições políticas do Rei não são das mais progressistas e que ele raramente utilizou sua música como instrumento político (embora tenha feito isso no início dos anos 1970, algo que parecem ter esquecido). O que há em comum entre os três? Prontamente suas obras foram discutidas a partir de posicionamentos controversos que fazem parte do indivíduo. É como se aquilo que produzissem fosse desqualificado por causa das suas opiniões. É o dilema de Pelé e Edson: um foi gênio; o outro (confira no documentário Pelé, 2021, Netflix), nem tanto assim.

Não deixei de gostar dos discos de Van Morrison; embora não seja muito fã, respeito profundamente a obra de Eric Clapton; e, sobre o Rei, defenderei para sempre sua fase entre 1968 e 1977, entre Se Você Pensa e Outra Vez, numa das transições mais interessantes para um artista genuinamente popular, saindo do estereótipo de bom-moço da Jovem Guarda, entrando de cabeça na psicodelia, no funk e na distorção, passeando por arranjos ousados e culminando na mais linda canção romântica já escrita no Brasil. Como a obra de Roberto Carlos pode ser diminuída por causa das opiniões e pensamentos de Roberto Carlos Braga? Um dos álbuns mais potentes feitos no Brasil no final do século passado se chama A Vida é Doce (1999), do Lobão. Seria um disco menor por conta daquilo que o Lobão fala? Inútil (1983), do Ultraje a Rigor, deixa de ser um retrato perfeito de uma época em que a gente tentava de tudo e só perdia? — Copa 1982, Diretas, Tancredo, tudo aquilo.

O exercício para separar vida e obra, isto é, aquilo que o indivíduo é/pensa e aquilo que o indivíduo é difícil e exige um certo sacrifício. Entendo que é complicado admitir que um idiota pode fazer algo genial. Mas, infelizmente, nesta relação, talento e caráter são discrepantes. É preciso admitir que grandes babacas podem ser talentosos. Da mesma forma que pessoas ótimas, de boa índole, podem produzir obras descartáveis e de baixa qualidade. É este o exercício que é necessário fazer com a Copa do Mundo do Catar: ela é a Copa errada no lugar errado; mesmo assim, será vivida por mim com a mesma intensidade que dediquei aos outros Mundiais. Tem, nisto, algo que não se explica: a paixão.

Vida e obra

Quando Karim Benzema foi cortado da Copa por uma lesão, fiquei triste. Da mesma maneira, senti a perda de Sadio Mané, estrela de Senegal e um dos melhores jogadores do mundo. Percebi que alguns comemoravam a ausência de duas das principais atrações do mundial, algo que supostamente ajudaria a seleção brasileira rumo ao hexa. Torço pelo Brasil, como torço desde 1986 e como possivelmente torcerei ao longo das Copas. Há, entretanto, algo que se sobrepõe a essa torcida, que é a minha paixão pelo futebol.

Para mim, a Copa do Mundo nunca foi sobre vestir verde amarelo, “voa, canarinho, voa”, reunião em boteco para torcer, celebração entre amigos, enfeitar a casa com as cores da bandeira ou fazer parte de eventos que têm como pano de fundo a Copa. O meu modo de acompanhar os jogos é o mais chato possível. Gosto de assistir às partidas sozinho, volta e meia anotando coisas, sem muita gente falando em volta. E não é coisa da profissão. Eu já fazia isso em Mundiais anteriores, nesse processo de isolamento consentido, em que minha atenção se volta exclusivamente para o campo de jogo, sem cerveja e sem barulho. A Copa é a razão pela qual estou no jornalismo esportivo e aprendi a ser fã de futebol por um caminho diferente da maioria: estou pelo espetáculo e não pelo pertencimento. Não quero torcida ao meu redor. Quero apenas o jogo.

O Catar é um país com graves infrações aos direitos humanos, que trata as mulheres da pior forma possível, com um regime repleto de atrocidades, autoritarismo e crueldade. Ele não deixa de ser isso durante a Copa. Aliás, a competição está no país por causa de outras razões, os petrodólares, a expansão imperialista da FIFA em transformar o Oriente Médio num centro futebolístico. Não há local melhor. A ostentação, a riqueza demasiada e o artificialismo do país são perfeitos para ilustrar essa espécie de Novo Mundo que se organiza em torno dos xeiques árabes. É também um sinal de retribuição aos trilhões depositados por eles no futebol. É uma era exagerada, concentrada, trilhordária. Graças a alguns deles, a Premier League injeta muito dinheiro para fazer a máquina girar. O Paris Saint-Germain, o time que consegue reunir Mbappé, Messi e Neymar, é obra deles. A FIFA, quando decide pelo Catar, está dizendo o seguinte: tomem nosso prato principal como sinal de agradecimento por tanto que vocês fazem pelo futebol. Esse tanto pode ser traduzido por dinheiro. E a mensagem da FIFA pode ser traduzida como: A Copa é de vocês, mas a gente quer uma fatia desse ouro negro.

Qualquer sentimento humanamente digno rechaçaria ou até mesmo boicotaria a Copa do Catar. Mas eu não consegui. Existe algo mais forte que me leva para a frente da TV com o objetivo de assistir a Copa. E, desta vez, em 2022, com algo bem pessoal que reforça esse sentimento: a descoberta de que eu posso me deixar levar pela paixão.

Paixão e profissão

Pela segunda edição consecutiva, não cobrirei a Copa. A emissora em que trabalho não adquiriu os direitos do Mundial. Sendo assim, estou fora da festa novamente. Minha primeira Copa como profissional de imprensa foi em 2002. Quando me perguntam sobre uma cobertura inesquecível, cito a Copa do Japão e da Coreia do Sul como o maior exemplo do que é fazer parte de algo grandioso. Estou (estou ainda?) no jornalismo por causa disso. Eu me conheço e sei como gosto e como cresço em grandes eventos. Toda minha energia é depositada nesse curto período de quatro em quatro anos. Foi assim em 2006 e em 2014. Em 2010, trabalhando na Band, a Copa foi transmitida em rede, mas, de certa forma, me senti parte do processo, ainda que de maneira indireta.

Em 2018, ao contrário de 2022, a frustração por ver meus colegas cobrirem o evento e eu alternar entre a TV e as contas no banco foi enorme. A Copa não é qualquer coisa para mim. Eu me preparo, eu estudo, eu procuro saber o que está acontecendo. Eu vejo os jogos e acho fascinante aquilo que se observa numa Copa: as narrativas de heróis e vilões, as tendências táticas, os momentos de glória e tristeza, os improváveis acontecimentos e, é claro, a seleção brasileira. Em 2018, passei a Copa inteira pensando que meu lugar não era aqui, era na Rússia. E pensava: “como que tanta gente que sabe menos que eu está lá?”.

Durante aquela edição, aconteceu o curioso caso da demissão que foi revogada, algo que um dia explicarei com mais clareza para quem me acompanha. Para a “opinião pública” (sic), que mais é uma “bolha” que opinião pública, eu fui o demitido que voltou nos braços do povo, reconduzido ao seu cargo graças aos ouvintes. Esse romantismo me serviu por um tempo, admito. Hoje, vejo que foi a pior coisa que já me aconteceu como jornalista. Primeiro, a história contada não é a história ocorrida. Sempre houve algo de podre no Reino da Dinamarca. Segundo, gerou uma pressão em mim que não foi saudável. E, por fim, fui tomado por um ressentimento e uma mágoa que me fizeram muito mal. Garanto a vocês: teve gente que saiu bem mais feliz que eu com essa situação. É aquela coisa: há o herói, mas há aquele que te fez herói, mesmo que, no final da história, ele tenha sido o grande vilão.

Isso aconteceu no final da Copa, no dia 13 de julho de 2018, dois dias antes da final entre França e Croácia. Com o tempo, a Copa da Rússia é lembrada por mim como um período de amargura e ressentimento. Como mencionei, um dia escrevo realmente sobre tudo que aconteceu. Talvez precise de um advogado. O que posso relatar agora é que foi um período difícil demais, que ninguém imagina. Terminei a Copa de 2018 naufragado em ressentimento: por não ter ido, pelo fato de minha emissora não cobrir o mundial, pela demissão, pelo jeito que aconteceu aquilo, pela ilusão comprada pelas pessoas (e que nunca fiz questão de desmentir), pelo imaginário criado sobre mim (que também nunca fiz questão de desmentir) e, talvez o que mais me magoe, perceber que eu ainda poderia ser ingênuo ao me deixar levar por uma suposta vaidade de uma narrativa que, hoje, soa ridícula. O “herói reconduzido ao posto pela pressão dos ouvintes” é uma versão farsante. Digamos que uma versão mais condizente com a realidade seja: “fiz merda e agora? quem vai trabalhar por mim?”. Para bom entendedor, será que meia palavra basta?

Mágoas pessoais à parte, o evento de 2018, durante a Copa, me fez tomar um caminho que é uma consequência gerada a partir de uma série de frustrações que tive na minha profissão. Há quatro anos, minha relação profissional com a Copa mudou. Diria que minha relação profissional com o jornalismo esportivo mudou. Três meses depois, publiquei minha dissertação. Passei a entender a academia como um mundo a ser desbravado. E passei a gostar disso. Um ano depois, o convite para escrever a biografia de Ruy Carlos Ostermann. Três anos depois, a docência. Quatro anos depois, meu terceiro livro. Essa sequência de acontecimentos aplacou bastante, ao menos, um dos meus ressentimentos. Recentemente, no Altas Horas, o Gabigol disse que a raiva por não estar na lista de convocados durou meia hora. No caso dele, não acredito muito, mas, no meu, tenham certeza: minha frustração por não estar no Catar durou bem menos tempo que em 2018.

Ao mesmo tempo em que os jogos se desenvolvem no Oriente Médio, lanço um livro, tenho uma série de bancas para cumprir até o final do ano, preciso finalizar o semestre com meus alunos e finalmente coloquei no papel uma organização mais coerente para o livro do Professor. Para efeitos de frustração, não substitua a decepção por resignação: substitua pela descoberta de outros talentos, outros gostos e outras metas. Foi quando percebi que precisava ressignificar a Copa do Mundo em mim e devolvê-la ao seu patamar de origem, àquilo que é essência: é quando ela deixa de ser profissão para se transformar, em sua integralidade, naquilo que sempre foi: de novo, a paixão.

Razão e devoção

Meu lado racional deveria rejeitar essa empolgação com a Copa do Catar. Parece estar tudo errado. Um país antidemocrático, cruel e atroz. Um local que não tem nenhuma ligação com o futebol. Uma entidade mergulhada em corrupção e se aproveitando da riqueza dos xeiques para se manter como dona do (futebol no) mundo. Uma seleção cujo principal símbolo, sua camisa, foi apropriado por uma massa que, entre outras coisas, pede intervenção militar (sem saber o que significa, mas pede). Um país em ebulição por causa das eleições que esfriou completamente o sentido de torcer e de se identificar com a própria seleção. Ora, com tantos pontos contrários e, ainda por cima, sem nenhuma necessidade de cobrir o evento, por que essa vontade tão grande em viver esse evento?

Acontece que a racionalidade nessas horas cede lugar ao espírito da devoção. Não sei se é antiprofissional, se é tapar o sol das atrocidades com a peneira da alienação, se é ser massa de manobra como muitos colocam, se é estupidez vibrar com uma Copa estúpida. Sei que é um sentimento absolutamente genuíno, orgânico, sincero. Acompanharei a Copa do Mundo da mesma forma que fiz em 1998. Depois de 24 anos, parece que me libertei de todas as amarras que me prendiam: a amarra da racionalidade, que me exigia pensar mais na cobertura que no fato; a amarra da profissão, que me estimulava a crescer como jornalista; a amarra da (suposta) objetividade, que me impedia de ver os jogos como eu gosto; e, principalmente, a amarra do ressentimento, que, como em 2018, me deixava na corda bamba entre a raiva e a autoindulgência. Parei de fazer as perguntas que não tinham respostas: “por que eu não estou lá? o que eu fiz de errado? essas pessoas são melhores que eu?”.

A inveja pode ser por orgulho ou por frustração. Desta vez, a inveja, como no caso do Gabigol, durou só meia hora. Talvez seja o sentimento de estar fazendo algo que eu realmente gosto muito, que é lecionar, pesquisar, escrever, lançar livro, pensar. Mas, talvez, seja por causa de um reencontro que há muito tempo eu precisava. O despertar de uma antiga paixão, que é a paixão pelo futebol e pela Copa do Mundo. A compreensão de saber separar o que é o futebol e o que é a FIFA; o que é o Catar e o que são os jogos; o que é minha torcida e o que é minha razão. E, também, talvez seja por compreender uma maturidade que eu não tinha percebido: a de que a vida não é só sobre ter/ser razão. É sobre deixar se levar por aquilo que nos move, que traz o brilho nos olhos e aquilo que nos emociona. É sobre isso, sobre paixão. Sobre a minha própria vida.

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Jornalista; comentarista esportivo; doutorando em Comunicação; mestre em Comunicação e Informação; especialização em Jornalismo Esportivo.

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Carlos Guimarães

Carlos Guimarães

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Jornalista; comentarista esportivo; doutorando em Comunicação; mestre em Comunicação e Informação; especialização em Jornalismo Esportivo.