É o fim do rádio? (ou o que vem por aí?)

O que vai acontecer com o rádio esportivo caso passe no Senado lei que obriga emissoras a pagar para cobrir os campeonatos? Se você acha que é o fim do rádio, você está errado (como você conheceu, ele já acabou).

As emissoras de rádio terão de pagar para entrar num estádio de futebol? O fim do rádio não é a morte do rádio — é apenas o fim das coisas como a gente conheceu. Foto: site Só Esporte (em reprodução de texto de Rodney Brocanelli)
Reprodução dos artigos 159 e 160 do PL 1153/19.
  1. Desemprego em massa. Tem muita gente que depende das transmissões dos jogos para sobreviver. Teríamos muitos radialistas demitidos e, sem possibilidades no mercado, deixando a profissão.
  2. Falência de emissoras. Muitas emissoras dependem das transmissões para conseguir patrocínio, faturar e baseiam suas programações nesses modelos. Seria a extinção de diversas rádios, especialmente as radiowebs que se dedicam a essas coberturas, uma saída interessante de mercado que seria perdida por essa lei.
  3. Abalo nos influenciadores digitais. Uma nova modalidade que vem se apresentando no YouTube é a transmissão de um jogo feita pelo canal de determinado influenciador. Se formos identificar qual o maior número de acessos nos vídeos publicados por eles, veremos que aqueles que possuem um maior número de visualizações são justamente as jornadas esportivas. Sem direitos, sem transmissão. Um produto criado que seria extinto.
  4. Uma nova jornada esportiva. Tudo aquilo que é tradicional daria lugar a um novo modelo de jornadas esportivas, mais comentada, mais analítica e sem narração. Já funciona assim com diversas emissoras que, por exemplo, não têm direitos para a Copa do Mundo. É a reconfiguração mais drástica para um modelo consolidado. O ouvinte (e os profissionais) estariam preparados para isto?
  5. Um novo rádio esportivo. Com isso, seria potencializada a transição definitiva para um novo rádio esportivo, que contrasta com o tradicional e se aproxima do formato de podcasts e de falação. Na verdade, só seria a ficha caindo. Esse rádio já existe. Na época de consumo on demand, soa arcaico ainda considerar o rádio como um moderador do tempo do ouvinte. Ele não “aconselha” mais os horários às pessoas. Senti isso quando um ouvinte perguntou se falaríamos de Grêmio na Rádio Guaíba e nossa resposta foi que já tínhamos abordado esse assunto. Sua resposta foi um baque que não tomou a devida proporção no momento: “Ok, vou então recuperar na live de vocês”. Ou seja, o ouvinte deixou de ouvir a Guaíba para ouvir a Guaíba, mas dessintonizando do dial para acompanhar a mesma emissora nas redes sociais, pois o assunto presente não lhe interessava.
  6. A força dos podcasts. Se o formato não enjoar, e esse se precisa ser enfatizado, quem ganha força é o podcast. Por sua estrutura on demand, ele será o canal sob medida para que o torcedor acompanhe os fatos do cotidiano.
  7. Monopólio. Sim, haverá emissora para comprar os direitos. Poucas. A pluralidade de ofertas existente hoje daria lugar a poucas opções, não restando ao ouvinte alternativa senão escutar a única ou as poucas rádios que podem transmitir uma partida de futebol.
  8. Jornalismo torcedor. Vem ganhando força no rádio esportivo o jornalismo torcedor. Como se fala em pertencimento e defendo a hipótese de que debates esportivos são uma extensão do papo de bar, cada vez mais teremos canais com debates e torcedores analisando as partidas. Caem o distanciamento e as sumidades. No palco, gente como a gente. Pode até ser interessante para o ouvinte, mas é péssimo para os jornalistas.

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Jornalista; comentarista esportivo; doutorando em Comunicação; mestre em Comunicação e Informação; especialização em Jornalismo Esportivo.

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Carlos Guimarães

Jornalista; comentarista esportivo; doutorando em Comunicação; mestre em Comunicação e Informação; especialização em Jornalismo Esportivo.